Disque “V” para voar

Os íbis-eremitas fotografados em experimento sobre voo em "V" na Itália (Foto: Markus Unsöld)
Os íbis-eremitas fotografados em experimento sobre voo em “V” na Itália (Foto: Markus Unsöld)

EM UMA VIAGEM que fiz em 2012 para a costa de Maryland, no nordeste dos EUA, testemunhei pela primeira vez na vida um grupo de patos voando numa formação em “V”, com uma ave liderando o trajeto na frente e duas filas de indivíduos seguindo atrás. Uma amiga que nos acompanhava me perguntou por que as aves voavam daquele jeito, mas eu não tinha uma resposta na ponta da língua. Mal sabia eu que, dois anos atrás, nenhum cientista tinha ainda uma resposta clara.
Eu já sabia que existiam teorias de aerodinâmica explicando o fenômeno, e sabia que as aves se revezam na dianteira da formação. Mas nunca havia buscado informação para entender por que elas o fazem. Já tinha ouvido falar também de tentativas alternativas de explicar o fenômeno. Uma delas seria a de que o animal na dianteira é o único a prestar atenção à rota, deixando os outros “descansarem o cérebro”, hipótese que sempre achei estranha. Outra tese falava em uma “estratégia contra predadores”.

Agora, finalmente, um estudo na revista “Nature” descreve um fabuloso experimento com um grupo de íbis-eremitas, uma ave do Mediterrâneo, oferecendo evidência experimental para a teoria puramente aerodinâmica da formação em “V”. No trabalho, cientistas treinaram um grupo de aves para seguir um biólogo pendurado num ultraleve, como se ele fosse o “líder do bando”.

Os cientistas, liderados por Steven Portugal, da Universidade de Londres, conseguiram gravar um vídeo de 43 minutos dos íbis sobrevoando colinas na Toscana. No trajeto recolheram evidências que comprovaram uma teoria aerodinâmica específica sobre a formação em “V”.

A resposta? Quando a aves que segue na frente batem suas asas, o movimento cria um vórtice de ar girando para fora. Uma ave que siga esta outra ave alinhada com a ponta da asa da líder pode aproveitar uma breve corrente de ar direcionada para cima, em um trecho específico do vórtice. Esse fluxo de ar ajuda a sustentar a ave em voo, sem que seja necessário bater as asas com tanta força para vencer a força da gravidade.

Uma teoria parecida com essa também explica a vantagem da formação em V para aviões de guerra, com exceção de que em aeronaves –que não batem as asas– a física por trás do fenômeno é bem mais simples. De um jeito ou de outro, as peças do quebra-cabeças estão unidas agora.
A divisão de jornalismo da “Nature” produziu o excelente vídeo abaixo sobre o experimento com os íbis. Vale a pena ver.

 por Rafael Garcia

Contardo Calligaris fala sobre a manutenção do casamento e a importância do sexo entre os casais

Para o psicanalista italiano, definir um relacionamento amoroso é uma longa história

Contardo Calligaris fala sobre a manutenção do casamento e a importância do sexo entre os casais Charles Guerra/Agencia RBS
Contardo esteve em Florianópolis recentemente participando do Fronteiras do Pensamento Foto: Charles Guerra / Agencia RBS
 
Depois de uma palestra introspectiva no ciclo de debates Fronteiras do Pensamento, em Florianópolis, no qual divagou sobre a importância da ficção, o psicanalista italiano Contardo Calligaris não se importou em mudar o tema da conversa. Ao ser avisado que seria questionado sobre relacionamentos, abriu um sorriso e disse: ótimo!.

Sua visão sobre namoro, casamento, sexo, preconceito e sentimentos, entre outros temas, é escrita na coluna semanal no caderno Ilustrada, da Folha de S. Paulo, e ganhou leitores atentos, que parecem encontrar nas palavras de Calligaris uma forma mais prática de encarar as coisas.

Mas os pensamentos não estão restritos ao jornal. Adepto do Twitter (@ccalligaris), volta e meia brinda seus quase 40 mil seguidores com um pensamento resumido em 140 caracteres. Em 2010, fez uma série de tuítes de sucesso chamada Solidão Urbana. Foram 100 publicações sobre o tema. "Há os que recusam convites porque, cá entre nós, é muito trabalho", dizia um de seus posts. Depois seguiu com a série Encontros Urbanos.

Com o tempo contado, Calligaris falou ao Donna sobre alguns dilemas da vida a dois.

Ainda é possível construir relacionamentos duradouros?
Por que todo mundo acha que a duração seria um valor? Eu conheço relacionamentos que duraram anos e foram péssimos do começo ao fim e outros que duraram uma semana e foram grandiosos, mudaram a vida daqueles que nele se engajaram, tocaram a vida profundamente, e foi então um momento crucial das duas pessoas que se encontraram. Será que a duração é a primeira coisa que devemos pedir de um relacionamento? Eu acredito que a primeira coisa é que valha a pena, me mude, me transforme, me toque. Definir um bom relacionamento amoroso é uma longa história, mas não sei se colocaria a duração como um traço decisivo. Durar não é um propósito de um casal. Se o propósito for durar você vai viver apenas de concessões para que aquilo dure, o que é péssimo.

O que mantém um casal junto?Que cada um seja incentivo para o desejo do outro e não uma desculpa para o outro desistir de coisas que são cruciais na vida dele e dela. Se eu posso dizer eu queria muito dar a volta ao mundo de bicicleta, mas infelizmente minha mulher não gosta de duas rodas, realmente eu devo sair dessa relação. Se eu posso dizer qualquer coisa e o meu marido me encorajou muito a fazer isso, a relação faz sentido. A relação não é uma desculpa para desistir do nosso desejo. Deveria ser o contrário, deveria ser o que potencializa o desejo de cada um. Esse é o primeiro ponto crucial para que um casal valha a pena. O outro me ajudar a desejar mais.

Nessa questão de companheirismo, muitos casais reclamam que a relação esfria. Faz parte?
Os colegas sexólogos têm um monte de ideias certas. Não é só o companheirismo que esfria a relação, ele poderia não esfriar. O que esfria é a infantilização. Um casal que começa a brincar com o tom de voz de bebê é fadado à extinção, um casal que se chama mutuamente, seja qual for a idade, de mamãe e papai porque tem filhos é fadado também à extinção. É preciso continuar se considerando adultos. Outra coisa importante, que todo mundo sabe, mas que todo mundo esquece com muita facilidade, o sexo precisa de treino. Ou seja, quanto menos o casal transa, menos vai transar. Manter uma vida sexual ativa não é uma consequência de efeito da natureza. É um esforço. É preciso pensar no sexo, pensar no sexo quando o outro não está, pensar em como vai ser o sexo, é preciso manter uma excitação sexual e ter fantasias. O sexo com preguiça não rola.

Há traições que são mais fáceis de serem perdoadas em um relacionamento?
Na minha doutrina a única traição realmente que importa é a traição de si mesmo. Se por minha causa a minha parceira teve que trair seu próprio desejo, de qualquer jeito o casamento está falido. Então, a ideia de que "estou traindo o outro porque estou saindo com uma terceira pessoa" não tem muito sentido do meu ponto de vista. Mas eu sou cara que não sou absolutamente ciumento. Então a compreensão minha para essas coisas é muito limitada. Ou o casal não existe mais - nesse caso não tem traição nenhuma, simplesmente cada um está indo para um lado - ou o casal existe e o que estamos chamando de traição é algo como: "Ah, você estava viajando para Nova York, quatro dias a trabalho e transou com um cara que encontrou no hotel..." Pode até me ligar para dizer "foi ótimo, me diverti".

Mas é uma minoria que é assim...
Sem dúvida, é uma minoria.

Esse mundo paralelo de mídias sociais, como o Facebook, prejudica a formação de relações reais?
Não. Eu acho que atrapalha as relações enquanto tais. Mas tem um monte de gente que se encontra graças à internet. Não estou nem falando do Facebook em geral, ou de encontros pela internet. Eu encorajo, inclusive, vários pacientes meus a ficarem online. Porque com o ritmo de vida de hoje, o ritmo de trabalho e companhia, faz com que encontrar alguém seja muito complicado. Por que não recorrer àquilo? E tem estatísticas americanas, e eu não sei se a gente tem que acreditar nisso, mas 15% dos casamentos dos últimos anos são de pessoas que se encontraram pela net. Conheço pessoas que só têm sexo online, por videocam à distância. Desse ponto de vista, acho que a internet é um lugar onde você pode ter uma fantasia muito peculiar, e você, muito mais facilmente que no mundo dito real, vai encontrar sempre alguém que tenha uma fantasia como a sua. E, tem mais, relações sempre foram virtuais. Ninguém nunca realmente soube com quem estava transando, quem estava amando ou com quem se casou.