Para o psicanalista italiano, definir um relacionamento amoroso é uma longa história

Contardo esteve em Florianópolis recentemente participando do Fronteiras do Pensamento
Foto:
Charles Guerra / Agencia RBS
Depois de uma palestra introspectiva no ciclo de debates Fronteiras
do Pensamento, em Florianópolis, no qual divagou sobre a importância da
ficção, o psicanalista italiano Contardo Calligaris não se importou em
mudar o tema da conversa. Ao ser avisado que seria questionado sobre
relacionamentos, abriu um sorriso e disse: ótimo!.
Sua visão sobre namoro, casamento, sexo, preconceito e sentimentos,
entre outros temas, é escrita na coluna semanal no caderno Ilustrada, da
Folha de S. Paulo, e ganhou leitores atentos, que parecem encontrar nas
palavras de Calligaris uma forma mais prática de encarar as coisas.
Mas os pensamentos não estão restritos ao jornal. Adepto do Twitter
(@ccalligaris), volta e meia brinda seus quase 40 mil seguidores com um
pensamento resumido em 140 caracteres. Em 2010, fez uma série de tuítes
de sucesso chamada Solidão Urbana. Foram 100 publicações sobre o tema.
"Há os que recusam convites porque, cá entre nós, é muito trabalho",
dizia um de seus posts. Depois seguiu com a série Encontros Urbanos.
Com o tempo contado, Calligaris falou ao Donna sobre alguns dilemas da vida a dois.
Ainda é possível construir relacionamentos duradouros?
Por
que todo mundo acha que a duração seria um valor? Eu conheço
relacionamentos que duraram anos e foram péssimos do começo ao fim e
outros que duraram uma semana e foram grandiosos, mudaram a vida
daqueles que nele se engajaram, tocaram a vida profundamente, e foi
então um momento crucial das duas pessoas que se encontraram. Será que a
duração é a primeira coisa que devemos pedir de um relacionamento? Eu
acredito que a primeira coisa é que valha a pena, me mude, me
transforme, me toque. Definir um bom relacionamento amoroso é uma longa
história, mas não sei se colocaria a duração como um traço decisivo.
Durar não é um propósito de um casal. Se o propósito for durar você vai
viver apenas de concessões para que aquilo dure, o que é péssimo.
O que mantém um casal junto?Que cada um
seja incentivo para o desejo do outro e não uma desculpa para o outro
desistir de coisas que são cruciais na vida dele e dela. Se eu posso
dizer eu queria muito dar a volta ao mundo de bicicleta, mas
infelizmente minha mulher não gosta de duas rodas, realmente eu devo
sair dessa relação. Se eu posso dizer qualquer coisa e o meu marido me
encorajou muito a fazer isso, a relação faz sentido. A relação não é uma
desculpa para desistir do nosso desejo. Deveria ser o contrário,
deveria ser o que potencializa o desejo de cada um. Esse é o primeiro
ponto crucial para que um casal valha a pena. O outro me ajudar a
desejar mais.
Nessa questão de companheirismo, muitos casais reclamam que a relação esfria. Faz parte?
Os
colegas sexólogos têm um monte de ideias certas. Não é só o
companheirismo que esfria a relação, ele poderia não esfriar. O que
esfria é a infantilização. Um casal que começa a brincar com o tom de
voz de bebê é fadado à extinção, um casal que se chama mutuamente, seja
qual for a idade, de mamãe e papai porque tem filhos é fadado também à
extinção. É preciso continuar se considerando adultos. Outra coisa
importante, que todo mundo sabe, mas que todo mundo esquece com muita
facilidade, o sexo precisa de treino. Ou seja, quanto menos o casal
transa, menos vai transar. Manter uma vida sexual ativa não é uma
consequência de efeito da natureza. É um esforço. É preciso pensar no
sexo, pensar no sexo quando o outro não está, pensar em como vai ser o
sexo, é preciso manter uma excitação sexual e ter fantasias. O sexo com
preguiça não rola.
Há traições que são mais fáceis de serem perdoadas em um relacionamento?
Na
minha doutrina a única traição realmente que importa é a traição de si
mesmo. Se por minha causa a minha parceira teve que trair seu próprio
desejo, de qualquer jeito o casamento está falido. Então, a ideia de que
"estou traindo o outro porque estou saindo com uma terceira pessoa" não
tem muito sentido do meu ponto de vista. Mas eu sou cara que não sou
absolutamente ciumento. Então a compreensão minha para essas coisas é
muito limitada. Ou o casal não existe mais - nesse caso não tem traição
nenhuma, simplesmente cada um está indo para um lado - ou o casal existe
e o que estamos chamando de traição é algo como: "Ah, você estava
viajando para Nova York, quatro dias a trabalho e transou com um cara
que encontrou no hotel..." Pode até me ligar para dizer "foi ótimo, me
diverti".
Mas é uma minoria que é assim...
Sem dúvida, é uma minoria.
Esse mundo paralelo de mídias sociais, como o Facebook, prejudica a formação de relações reais?
Não.
Eu acho que atrapalha as relações enquanto tais. Mas tem um monte de
gente que se encontra graças à internet. Não estou nem falando do
Facebook em geral, ou de encontros pela internet. Eu encorajo,
inclusive, vários pacientes meus a ficarem online. Porque com o ritmo de
vida de hoje, o ritmo de trabalho e companhia, faz com que encontrar
alguém seja muito complicado. Por que não recorrer àquilo? E tem
estatísticas americanas, e eu não sei se a gente tem que acreditar
nisso, mas 15% dos casamentos dos últimos anos são de pessoas que se
encontraram pela net. Conheço pessoas que só têm sexo online, por
videocam à distância. Desse ponto de vista, acho que a internet é um
lugar onde você pode ter uma fantasia muito peculiar, e você, muito mais
facilmente que no mundo dito real, vai encontrar sempre alguém que
tenha uma fantasia como a sua. E, tem mais, relações sempre foram
virtuais. Ninguém nunca realmente soube com quem estava transando, quem
estava amando ou com quem se casou.